Biomassa – Energia Alternativa, Entrevista a Américo Reis

Jovens Repórteres do AmbienteAmérico Reis
Biomassa – Energia Alternativa
Entrevista a Américo Reis
 
Os Jovens Repórteres do Ambiente entrevistaram o Sr. Américo Reis, monçanense com uma experiência ampla na promoção de projectos que tem por base o Ambiente. As questões colocadas, e respondidas com muita disponibilidade e amabilidade foram direccionadas para a futura central de biomassa de Monção.
 
 
 
 

Projecto
 
JRA: Como surgiu a ideia de construir uma central de biomassa?
Sr. AR: Existe hoje a certeza que o combustível mais utilizado quer na nossa vida pessoal, quer nas actividades económicas um dia vai acabar; refiro-me evidentemente ao petróleo e seus derivados. Possivelmente até vai acabar mais cedo do que aquilo que se previa. Efectivamente o consumo mundial deste produto aumentou, fruto sobretudo do desenvolvimento económico e social de países em emergência económica, sobretudo Asiáticos, nomeadamente a China, só para referir como exemplo. Fiz parte de uma comitiva que há bem pouco tempo se deslocou à China e aí pudemos constatar o grau de desenvolvimento que esse país tem. Alem de ser o mais povoado do mundo, o seu actual estado de desenvolvimento económico permite-lhe ter atitudes consumistas que se reflectem por exemplo na compra de carros novos. Só na cidade de Pequim todos os anos são emitidas cerca de cem mil matrículas novas para automóveis. Agora imaginem o que será em toda a China, na Índia, no Brasil etc., tudo indica que o crescimento económico mundial irá rapidamente esgotar as reservas de petróleo disponíveis na natureza. Este facto aliado a outros de natureza política e de estratégia dos diversos países (como sabem o petróleo está nas mãos de um pequeno grupo de produtores que o usam como arma quando bem o entendem, e dessa forma criam situações económicas a nível mundial muito complicadas, como é o caso presente em que o petróleo passou a barreira dos 100 dólares apenas por questões especulativas) contribuiu para que a nível mundial se começasse a pensar seriamente em energias alternativas e renováveis, quer seja a solar (através das placas solares), quer a hídrica (através dos aproveitamentos hídricos), quer a da biomassa. Portugal é até dos países que mais está a apostar em energias alternativas e temos na nossa Região casos concretos desta realidade. Como devem calcular este tipo de investimentos (energias renováveis) é controlada pelo Estado Português de forma a evitar descontrolos nos investimentos, ou seja, os investidores estão sujeitos à obtenção prévia de licença, que pode ser obtida através de concursos públicos, como foi o caso da Central de Biomassa de Monção. O Concurso lançado pelo Estado Português para diversas Centrais previa duas para os Distritos de Viana do Castelo e Braga. Este Concurso criou uma oportunidade que era importante aproveitar para a nossa Região e se possível para o nosso Concelho. E assim fizemos, com muito trabalho, em muito pouco tempo e contra concorrentes muito poderosos.
 
JRA: Onde se vai localizar essa central?
Sr. AR: A Empresa alugou aos Compartes e à junta de freguesia de Merufe um hectare de terreno e aos Compartes e à Junta de Freguesia de Longos Vales outro hectare e ficará naquela zona que hoje se chama zona industrial de Merufe/Longos Vales que é em Guimil, entre Longos Vales e Merufe.
 Esquema sobre Biomassa
 
 
JRA: Qual o programa europeu em que se insere este projecto?
Sr. AR: Ora bem, isto não é só um programa ou projecto europeu, vocês já ouviram falar no protocolo de Quioto. Nesta cidade já há muitos anos reuniu-se a maioria do países do mundo para tentarem arranjar soluções para os problemas ambientais criados pelo uso sistemático e desgovernado de combustíveis poluentes. Podemos considerar que foi aqui e a uma escala mundial que se começaram a criar condições para o investimento em energias renováveis e não poluentes. Foi aqui que se começou a criar consciência da necessidade premente de avançar com projectos e programas a nível global para minimizar os prejuízos causados por energias poluentes sobretudo usadas pelos países mais desenvolvidos. Esta situação está a criar alterações climatéricas muito rápidas e que vão trazer consequências nefastas para a nossa civilização. Portanto e para responder à vossa pergunta, a Central de Biomassa de Monção vai ao encontro e é um passo a nível mundial para a minimização dos problemas ambientais que hoje se fazem sentir em todo o mundo.
 
 
 
JRA: Quais os benefícios que as populações locais e juntas de freguesia podem obter da implementação desta central?
Sr. AR: O projecto é essencial para todos nós enquanto habitantes de uma região agro-florestal. Nós vivemos e trabalhamos rodeados de espaços agrícolas e florestais que se tem vindo a degradar ao longo dos tempos e por diversos motivos conjunturais. A Central quando construída permitirá criar condições motivadoras para os proprietários florestais nomeadamente evitando os fogos florestais, que são como se sabe desmotivadores de investimentos na nossa Floresta. A Central vai consumir grandes quantidades de matos e desperdícios florestais o que vai permitir limpar as florestas e dessa forma proporcionar situações de investimento que até agora são de alto risco. Portanto existem benefícios directos e imediatos para todos, quer sejam de ordem económica, ambiental ou de qualidade de vida. As Juntas de Freguesia e as Associações de Compartes que gerem terrenos florestais comunitários têm também um instrumento à disposição para intervirem nos seus terrenos de forma permanente e com eficácia quer proporcionando limpezas quer novas plantações. Nós, quando fizemos a candidatura, uma das coisas que o Concurso público nos obrigou a fazer foi o de celebrar contratos com os proprietários florestais ou os seus representantes: As Associações de Produtores Florestais, Compartes e a maioria das Juntas de Freguesia já assinaram contrato de fornecimento de biomassa.
 
JRA: Quais as vantagens e desvantagens ambientais adjacentes a este investimento?
Sr. AR: O facto de permitir diminuir os incêndios já é uma vantagem extraordinária. E também vai permitir, com a produção de energia, primeiro que se deixe de comprar lá fora energia e depois deixar de consumir energia produzida por derivados do petróleo. Muita da energia que se consome tem como matéria-prima inicial combustíveis poluentes. Se nós conseguirmos fazer energia através biomassa florestal não necessitamos de derivados do petróleo, produzimos energia limpa. É só meter na caldeira a biomassa florestal juntar água e produzir energia. Ao possibilitar fazer energia sem derivados do petróleo estamos a contribuir para um ambiente melhor. Em relação às desvantagens, não tem ou são irrelevantes. Julgo que as vantagens superam largamente as desvantagens.
 
JRA: Podia-nos fazer uma descrição sumária da estrutura da central?
Sr. AR: Vai ser construída num terreno de 2 hectares devidamente loteado. A Central é uma estrutura relativamente pequena, sendo a maior parte para armazenamento de desperdícios florestais. A construção possui e um pavilhão administrativo e uma área de produção que será algo parecido com um pote para fazer aguardente, só que em tamanho maior. Será uma estrutura muito simples e não poluente.
 
JRA: Sabemos que vossa excelência teve um papel preponderante na aprovação deste projecto. Poder-nos-ia fazer uma retrospectiva de todo o trabalho desenvolvido até ao momento da aprovação?
Sr. AR: Bem, não foi fácil. E podia ter sido aprovada para outro local noutro concelho do Distrito de Viana ou de Braga. Tenho feito e colaborado em muitos projectos e candidaturas, mas como este não. Foi muito motivador, mas muito complicado de fazer e de aprovar. A candidatura foi iniciada em 2007 e, como quase sempre acontece só quando se aproximava o final do prazo é que se começou a andar das pernas. O projecto foi muito complicado, envolveu muita gente, técnicos de diversas áreas, pareceres, estudos e contratos. Além dos estudos económicos e do estudo da localização foi preciso falar com a maioria dos Produtores Florestais, em Monção, Melgaço, nos Arcos de Valdevez, em Ponte de Lima e Paredes de Coura, foi um trabalho brutal. Primeiro, tivemos que formalizar o Consórcio, ou seja, um grupo de Empresários e Entidades da Fileira Florestal que estivessem disponíveis para investir e participar no Projecto mas que reunissem as condições impostas pela regras do Concurso Público, ou seja, tinham que demonstrar ser empresas viáveis e com capacidade financeira. Depois de formado o grupo, que é constituído por entidades Portuguesas e Galegas, passámos à fase seguinte: A localização da Central. E nesta altura sim, tive um papel decisivo, porque os nossos concorrentes eram muito fortes e ofereciam melhores condições De Vila Verde e da zona de Viana do Castelo havia propostas de cedência gratuita de terrenos para a implantação da Central e eu consegui que viesse para Monção noutras condições, nomeadamente alugando os terrenos e dessa forma trazendo mais-valias financeiras para o Concelho e para as freguesias de Merufe e Longos Vales. Mas o facto mais importante foi o de conseguir que a Central se instalasse no nosso Concelho, tarefa nada fácil como devem calcular. Os interesses eram muitos e a força doutros locais também candidatos era enorme. O meu papel, foi de sensibilizar os investidores de que esta era a melhor zona, relevando aspectos de localização, de produção Florestal e sobretudo de apoios privados, como os dos produtores e proprietários florestais e apoios da Câmara Municipal de Monção e das Juntas de Freguesia. No entanto, estas condições também as havia noutros locais e foi preciso muita persistência e empenho para que o Consórcio finalmente decidisse por Monção, espero que tenha valido a pena tanto trabalho.
 
JRA: Quantos postos de trabalho se vão criar quando a central estiver em funcionamento?
Sr. AR: Julgo que postos directos a trabalhar na central serão 10. O que a central vai provocar é a criação de muitos postos de trabalho indirectos. Os estudos que temos apontam para a necessidade de cerca de 250 trabalhadores diários na obtenção de biomassa florestal.
 
 
Central
 
JRA: Resumidamente, podia-nos explicar como funciona uma central de biomassa?
Sr. AR: Aquilo é uma “panela” onde se deitam os resíduos florestais adiciona-se água e “cozido” produz energia, dito de forma simplista.
 
JRA: Qual o destino da energia produzida?
Sr. AR: Se tudo correr bem vai ser produzida na Central em Guimil, nas freguesias de Merufe e Longos Vales do Concelho de Monção depois entra na rede nacional através da subestação de Troviscoso, e daí é transportada através da rede eléctrica e poderá eventualmente chegar às nossas casas ou pode ir para as cidades mais próximas…é energia para o país, entra na rede nacional. 
 
JRA: A partir de que resíduos se vai formar a energia produzida? Qual a sua providência geográfica?
Sr. AR: A zona de contratação de Biomassa é o Minho. Eu julgo que não vamos ter necessidade de sair do Vale do Minho. De Caminha até Melgaço temos matéria-prima suficiente para abastecer a Central. Para produzir energia vão-se aproveitar todos os desperdícios florestais, os matos rasteiros (tojo, silvas etc) as espécies não autóctones e que sendo infestantes são uma praga a eliminar e também arvores de crescimento rápido plantadas para o efeito.
 
JRA: Qual o tipo de matéria-prima geradora de energia a utilizar na central?
Sr. Ar: A central é auto-sustentável, ou seja, pode produzir energia para ela mesma. No início vai funcionar com energia eléctrica, mas depois vai-se auto-sustentar.
 
Os Jovens Repórteres do Ambiente ficaram devidamente informados e sensibilizados acerca do projecto a que se reportou esta entrevista. A sua importância ambiental e a sua contribuição para o desenvolvimento sustentável são vitais. Julgam que os leitores assimilarão esta mensagem extraordinariamente transmitida pelo Sr. Américo Reis, a quem deixamos sinceros agradecimentos ambientais.