Augusto Aurélio Barreiros Gomes, presidente da Junta de Freguesia de Valadares

“Gosto de ser presidente da Junta porque fiz um bom trabalho”
 Augusto Aurélio Barreiros, Valadares
Cara da Notícia
Augusto Aurélio Barreiros Gomes dedicou grande parte da sua vida à hotelaria, tendo a sua história ficado ligado a muitos restaurantes, cafés e pastelarias monçanenses, mas também de outros locais portugueses e africanos. Com 72 anos é casado com Carlota Georgina Gonçalves, com quem tem uma filha, de quem fala com orgulho: “Tenho uma filha licenciada em Ciências Farmacêuticas”. Tal como acontece com outros jovens que decidem prosseguir os estudos, também a sua filha não mora em Valadares, este facto é entristecedor para o autarca, no entanto, compreende que os mais novos não podem regressar porque não encontram emprego.
Actualmente ocupa os seus tempos livres a ler, e a trabalhar no campo. Contudo, fala do seu grande amor pelo desporto. “Quando era jovem e estava em África gostava de praticar desporto”. Ski aquático e ténis eram as modalidades preferidas.
Augusto Gomes afirma, convictamente, que hoje não tem referências, não existe ninguém que admire, apesar de no passado contar com algumas referências, adianta que “gostava de ter, mas hoje é completamente impossível fazer avaliações desse tipo”.
 
 Augusto Gomes há cerca de quatro meses das eleições autárquicas ainda não dá 100 por cento da certeza de ser novamente candidato à Junta de Valadares. No entanto, não esconde a intenção de terminar alguns dos projectos iniciados. Já este mês irá entrar em funcionamento a Casa Mortuária da freguesia no edifício da antiga cadeia.
Numa entrevista exclusiva ao ATM fala da recandidatura, da obra realizada na freguesia que já foi sede do concelho e do parque de lazer, que nascerá no recinto da Senhora da Abadia. Augusto Gomes conta ainda que foi o responsável pela criação do Centro Social, Cultural e Recreativo de Messegães, Valadares e Sá (CENSO), tendo iniciado com a vocação de transportar as crianças das freguesias para a escola.

Como vem sendo hábito na primeira semana de Julho, a freguesia de Valadares irá promover o passeio sénior, uma vez que esta faixa etária é a que ganha cada vez mais expressão em Valadares, daí Augusto Gomes acreditar que a função da Junta passa por proporcionar qualidade de vida aos idosos.
 
A Terra Minhota (ATM): Há quanto tempo é presidente da freguesia de Valadares?
Augusto Gomes (AG): Fui eleito a primeira vez em 1982, fiz o primeiro mandato, e depois como fui para Braga, devido à minha vida profissional, não me candidatei nas eleições seguintes. Estive três anos em Braga e quando regressei convidaram-me, novamente, para candidatar-me. Candidatei-me, e aqui estou até hoje.
 
ATM: O que o levou a concorrer a este cargo?
AG: Foi sobretudo pelo atraso da freguesia. Em 1982 esta freguesia não tinha um único caminho alcatroado. Esta é uma freguesia pequena, quer em termos geográfico, quer em termos populacionais. No entanto, tínhamos de fazer alguma coisa. Claro que naquela altura não havia muito dinheiro, e sem ele não é possível fazer obras. Os anteriores presidentes da Junta também eram pessoas desmotivadas, porque quando não há dinheiro…Nessa altura um presidente da Junta recebia 3 mil escudos, isso não era um motivo para as pessoas virem para a presidência da Junta. As pessoas assumiam este cargo porque queriam o bem desta freguesia. Valadares tem evoluído bastante, se é que se pode falar de evolução de freguesias que ficam muito distantes da sede do concelho. Há uma tendência para a desertificação, porque hoje as populações querem a farmácia, a escola, o cinema, o teatro, o futebol…por essa razão a tendência desta freguesia é a desertificação. Por essa razão, é com tristeza que digo que Valadares há dez anos tinha a escola primária, posto de correios, uma série de infra-estruturas que hoje deixaram de funcionar. Em compensação não tinha um Centro de Dia, que hoje tem. E nós procuramos melhor a qualidade de vida das populações da freguesia. É para isso que a Junta de Freguesia está no terreno, melhorar as condições de vida da terceira idade.
 
ATM: É esta faixa etária que está em maior número?
AG: Exactamente. A minha filha é um caso que serve de exemplo. Tirou um curso superior e actualmente trabalha no Porto. Tal como ela fez, também outros jovens do lugar da Bemposta, que é o maior da freguesia, cerca de 15 são licenciados e nenhum deles está cá. Este é um problema complicado. Contudo, no momento em que o Ordenamento de Território for feito de outra forma, e quando os políticos virem isto com realidade e humanismo. Claro, que não se resolve de uma assentada, mas…
 
ATM: Como acha que este problema poderia ser resolvido?
AG: A tendência actual é esta e não há nada a fazer. Há menos população, porque a escola fechou, e isso é, como se diz na gíria, uma pescadinha de rabo na boca. Actualmente, não há nada a fazer…
 
ATM: Qual o partido político que o apoiou?
AG: Eu sou Social Democrata, por natureza e por princípio, há muitos anos, antes mesmo de entrar na política. Sou filiado, apesar de não ter as quotas em dia, e como é lógico, participei nestas eleições com o PSD.
 
ATM: Como vê a presença do PSD no concelho?
AG: O PSD em Monção, à semelhança do que acontece no país é uma desgraça. Eu espero que este ciclo acabe, mas foi o PSD que se auto-destruiu. Há 15 anos, o PSD em Monção tinha cerca de 18/20 Juntas de Freguesia, entretanto o PSD entrou em perda com desavenças a nível interno, com o Dr. Armindo e a Dr.ª Amélia. E desde essa altura até agora tem vindo sempre a cair. Acho que agora bateu no fundo.
 
 Valadares
ATM: Até a representação do PSD na Câmara tem sido cada vez menor.
AG: Sim, também menos do que isso não pode. Porque, agora tem apenas um único representante. Mas o PSD tem uma grande implantação ao nível do concelho de Monção. Precisava que aparecesse uma pessoa com perfil, com classe, com capacidade para motivar os militantes e simpatizantes do partido. É difícil porque a política é muito parecida com o futebol, quando as equipas estão nos primeiros lugares, os estádios estão cheios, quando estão no fim da tabela são poucos os que vão apoiar. Na política é exactamente igual. O PSD vive um momento difícil, não tem Comissão Política, o que resta desta Comissão assumiram a responsabilidade de fazer contacto ao nível do concelho de Monção para saber quem estaria disponível a ser candidato. Fez sete ou oito contactos junto das pessoas que acharam que correspondiam ao perfil e todos deram uma resposta negativa. O barco está-se a afundar… Apareceu, então, o Dr. Jorge Nande, que foi convidado e que aceitou. É um indivíduo conotado com o partido socialista, mas eu também não encontro grande diferença entre as políticas praticadas pelo PS e PSD. Tem os dois a presunção de se intitularem Sociais Democratas.
 
ATM: É um bom candidato?
AG: É uma pessoa séria, com coragem, batalhador. É, com certeza, um bom candidato, pode não ganhar, mas é necessário começar por algum lado. Este é um indivíduo jovem, e dá a possibilidade ao PSD de conquistar a Câmara Municipal.
 
ATM: Aqui em Valadares, quais os principais projectos desenvolvidos por si?
AG: Durante este tempo, penso que a freguesia sofreu uma evolução. Neste momento, não há uma única casa na freguesia onde não haja uma estrada à porta. Temos feito uma obra notável. Fizemos a sede da Junta, que não existia quando eu cheguei. O nosso cemitério estava abandonado, presentemente estamos a ampliá-lo, comprámos dois campos contíguos, temos de fazer o projecto, que certamente será para um próximo mandato. Nós neste momento, sem sermos jardineiros, estamos a ajardinar algumas áreas e a preservar o que temos. Neste sentido, apresentamos uma candidatura, com muitas possibilidades de ser aceite, é um investimento que ronda os 250 mil euros. É um parque de lazer, situado na Senhora da Abadia, onde fazemos a festa tradicional. Vamos aumentar o espaço de lazer, com mais árvores, mais mesas. Temos também outro projecto, um loteamento, para quatro moradias, no lugar da Bemposta. Este tem a particularidade de ter sido pensado com o objectivo de fixar as pessoas na freguesia. Nós comprámos o terreno, fizemos o projecto, estamos a fazer as infra-estruturas e já temos um lote vendido. Eu pus a minha recandidatura dependente do projecto da área de lazer da Senhora da Abadia. Até porque já são muitos anos. Há doze anos que temos, aqui em Valadares Internet pública. No início havia muita frequência, mas actualmente são poucos os que vêm à Junta de Freguesia para aceder à Internet.
 
ATM: As prioridades são então colocar no terreno esses projectos?
AG: São dois projectos muito significativos e que envolvem muito dinheiro. No entanto, também como referi, vamos fazer um projecto para o cemitério. Já adquirimos dois terrenos, um por cinco mil euros e outro por dez mil euros. Queremos ter campas em terra e ter um cemitério mais moderno, se calhar com gavetões. Com a aquisição dos dois campos vamos conseguir fazer um parque de estacionamento, uma casa de banho para homens e mulheres. Este mês iremos também inaugurar a casa mortuária da freguesia, que se localiza no edifício da antiga cadeia de Valadares. Na área social, fazemos todos os anos o passeio dos idosos, visitámos outros locais do nosso país e até de Espanha, este ano vamos realizá-lo na primeira semana de Julho. Recebemos também os livros que estavam na escola primária que fechou e vamos colocá-los à disposição da população, num espaço na Sede da Junta, para que os interessados possam consultar os livros existentes.
 
ATM: Em termos de necessidades básicas para a população, nomeadamente a água potável e o saneamento básico. Como está Valadares?
AG: Água ao domicílio já temos há cerca de doze anos. Todas as casas têm água ao domicílio. Foi um projecto nosso, que em conjunto com a freguesia de Badim permitiu pôr água na freguesia de Sá e Messegães. O saneamento é a grande preocupação da nossa Junta, mas é uma obra muito cara. A Câmara Municipal não se esqueceu, mas se calhar já devia ter começado a fazer o saneamento aqui. Sei que está a ser feito um estudo, e nos próximos cinco anos poderemos ter o saneamento concluído.
 
ATM: E em relação à vertente social falou do passeio sénior que promovem. E em Valadares existem pessoas carenciadas a quem dão apoio?
AG: A nossa freguesia, felizmente, não tem pessoas carenciadas, nem problemas a nível de toxicodependência. O cenário na freguesia é cada vez população mais envelhecida. O que podemos fazer em relação aos idosos, nós fazemos. A Junta de Freguesia já resolveu problemas de restauração de casas velhas. Presentemente, estou a tentar colocar no Lar da Santa Casa da Misericórdia uma senhora, não é uma competência da Junta, mas a pessoa manifestou que fossemos nós a tratar do processo.
 
ATM: Quantos habitantes têm a freguesia?
AG: Tem poucos habitantes, cerca de 250, e com tendência para diminuir.
 
ATM: A junta de freguesia também se preocupa com a preservação das tradições? Pode dar exemplos de iniciativas que tenham desenvolvido neste âmbito?
AG: Esta freguesia insere-se num conjunto de freguesias, que são Sá e Messegães, que deveriam ser transformadas numa só. São pequenas e estão interligadas por vários aspectos, culturais, Igreja, o pároco de Valadares desde há muitos anos é das três freguesias. A Casa Paroquial é também das três, por isso acho que fazia todo o sentido ser transformada em apenas uma. Temos um Grupo Coral. No aspecto cultural não temos nada.
 Valadares
ATM: Existe alguma associação na freguesia? Vocês colaboram com ela?
AG: A única entidade é o CENSO. Associação de jovens não temos nenhuma, como há cada vez menos jovens…Eu tenho toda a legitimidade para falar do CENSO, porque fui o pai, a mãe, o padrinho e a madrinha. Fui eu que criei o CENSO. Em 1991, o Dr. Luís Marques Mendes visitou a nossa freguesia, nesse ano, passada uma semana haveria eleições, ele perguntou-me se eu achava que iria ganhar eleições. Eu disse-lhe que as ia ganhar e ia dar uma ´chita ` (termo recorrente na sueca). Se ganhares as eleições telefona-me, que eu ofereço uma carrinha à Junta de Freguesia. Como ganhei, fiz o telefonema, e Valadares recebeu a carrinha. Quando recebemos a carrinha, pensamos o que fazer com ela e então colocámo-la ao serviço do transporte das crianças das três freguesias, Valadares, Sá e Messegães, para a escola, porque muitas ficavam a três/quatro quilómetros. Eu depois fui falar com o Dr. João Ferreira Alves, falecido, meu amigo, e expus-lhe a situação. Criámos uma instituição à qual a carrinha iria ser doada, a nossa proposta foi aprovada, então, junto dos outros presidentes da Junta encarreguei-os de arranjar um número mínimo de cinco associados para fazer os estatutos do Centro Social. Foi assim que surgiu, primeiro a funcionar como transporte das crianças para a escola. Quando fui vice-presidente, tentei junto da Segurança Social, que o CENSO fosse considerada IPSS, não conseguimos na altura, e eu deixei de fazer parte da direcção da Associação. Na altura as três juntas de freguesia davam ao CENSO 150 contos, actualmente dão 200.
 
ATM: A escola primária da freguesia também fechou neste momento são as instalações do CENSO. Esta é a melhor utilidade que dão ao edifício?
AG: Eu não gosto de fazer crítica negativa a instituição quando não estão presentes. Eu acho que o CENSO deveria ter criado e edificado o seu edifício, porque teve todas as condições para o fazer. Isso tinha trazido um enriquecimento patrimonial à freguesia e permitia com o encerramento da escola primária, poderíamos dar outro uso. O critério não foi o mais indicado, mas agora como estamos numa fase de crise, acho que é um aproveitamento racional de um edifício, que passa a ter uma vida própria. Não sei se funciona bem ou mal, porque o meu relacionamento com o CENSO tem a ver com o subsídio que a Junta dá.
 
ATM: Porque chegou a esse ponto?
AG: Não me identifico com o comportamento, com a maneira de gerir e administrar o CENSO em muitos aspectos. Os Estatutos do CENSO dizem, por exemplo, que a direcção não deve ser reconhecida a não ser em ocasiões especiais, o que é certo é que o CENSO é uma coutada dos actuais dirigentes.
 
ATM: O Grupo Coral de Valadares ainda existe?
AG: Tal como acontecia com o sistema educativo, também o grupo coral integra elementos das três freguesias. Presentemente, digo isto com muita tristeza, o nosso pároco está doente. E quando falta o comandante, a disciplina e a participação não é a mesma.
 
ATM: Sente-se realizado? O que mais lhe agrada neste cargo?
AG: Gosto de ser presidente da Junta porque fiz um bom trabalho. E quando realizamos obra, é porque gostámos do nosso trabalho e devemos sentir-nos felizes, realizados. Claro que não está tudo feito e ainda há muitas coisas a fazer. Temos obra realizada, e obra feita. Quando me for embora, as pessoas, quer gostem ou não terão de dizer que quem fez foi aquela Junta que realizou a obra.
 
ATM: Aproximam-se as eleições, que se realizam já em Outubro. Pode dizer-se que é candidato?
AG: Eu acho que na política não há adversários, há concorrentes. Mas as pessoas, aparentemente, com mais capacidade de me tirar o lugar já concorreram todas. São 24 anos de Junta e os eleitores da freguesia, sempre com larga maioria, entenderam que estava a fazer um bom trabalho. Relativamente, a eu ser candidato não é uma decisão definitiva, estou pendente de saber uma notícia, mas eu vou ser candidato às próximas eleições autárquicas.
 
ATM: Tem projectos a concluir.
AG: O loteamento gostava de ser eu a concluí-lo. Assim como o parque de lazer da Senhora da Abadia. Não pela obra, mas pelo que representa para a freguesia. Esta será a sala de visitas da freguesia. Optámos por ter um espaço que sirva as pessoas da nossa freguesia e das vizinhas, mas todos aqueles visitantes que querem um parque de merendas, para descansar e com todas as comodidades adequadas ao tempo de hoje.
 
Cidália Meirim Rodrigues